quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Arrancada

Era mais um jogo em casa. Faltavam vinte para terminar a temporada regular. Estávamos a duas vitórias de diferença da classificação para os playoffs. Precisávamos da vitória. Estávamos perdendo por 2-1, o segundo período acabara há alguns segundos. No vestiário, uma tristeza latente, a falta de confiança visível em cada olhar, cada largada de sticks no chão emborrachado. Eu precisava dar um choque no pessoal.
Fui até o quadro branco onde rascunhávamos jogadas e escrevi, em letras garrafalmente vermelhas:
NÓS SOMOS O PIOR TIME DO MUNDO.
Um zum zum zum começou. Foram sentando-se me encarando. Eu encarando cada um deles.
Apaguei. Mais alguns sentaram, enquanto uns poucos acertavam os instrumentos de jogo. E escrevi:
NÓS SOMOS O PIOR E MAIS COVARDE TIME DO MUNDO.
Começava a sentir um grave repúdio àquelas palavras. Agora praticamente todos estavam sentados, olhando-me com cara de desafio. Resolvi devolver o desafio:
- Carter, você é o pior goleiro do mundo? - questionei.
- Não, senhor. Minha porcentagem de defesa está entre os 25 melhores da liga, e estamos na melhor liga do mundo. Então, não, não sou o pior goleiro do mundo.
Um zumbido de apoio foi ouvido.
- E eu sou um dos artilheiros. - gritou Johnson, nosso sueco do ataque.
E as autopromoções foram tomando corpo. Até que gritei:
- ENTÃO POR QUE CARALHO NÓS ESTAMOS NA SÉTIMA POSIÇÃO DA DIVISÃO MAIS FRACA DA LIGA?
Um silêncio que incomodava fez-se ouvir.
- Nós somos, em teoria, um dos melhores elencos da liga. Nós temos jogadores no top dez de várias estatísticas. E, mesmo assim, estamos fora até mesmo da briga pelo wild card.
O silêncio ainda incomodava.
- Estamos há vinte jogos, não, dezenove jogos e um período do fim da temporada. Vocês querem jogar esses dezenove e um terço e tirarem férias? É isso? - um "não" coletivo fez-se ouvir e sentir - Porque é isso que parece quando estamos jogando. Nós estamos em casa. Perdemos cinco jogos seguidos aqui, em nossos domínios, diante da nossa torcida, os caras que pagam nosso salário. Vocês acham isso certo?
O não, aparentemente, os jogadores sabiam entoar em uníssono.
- Pois eu quero ver isso em campo. Perder jogos em casa é normal, nós temos 41 jogos, perder cinco, seis, até dez, desde que se recupere fora, fica dentro da normalidade. Mas, nós perdemos cinco. CINCO! E estamos caminhando para a sexta derrota. Faltam menos de vinte jogos, meus caros. Mas, podem faltar mais jogos. Tudo depende desses vinte.
Olhava para como se fosse comer o rim esquerdo de cada um deles.
- Chegamos num momento da temporada que é vencer ou vencer. Não tem dessa de segurar resultado. Não tem essa de garantir ponto extra levando pro "overtime", nós precisamos vencer. E tem que ser dentro dos sessenta minutos de jogo. Tem que ser de qualquer jeito. Nossa torcida está precisando disso. Vocês olharam para o ginásio hoje? Vocês notaram que não está cheio? É culpa nossa! Nós esvaziamos aqueles lugares com nossas cinco derrotas, nós esvaziamos aquelas cadeiras com nossa queda de rendimento e afastamento da zona de classificação, nós esvaziamos camarotes com a derrota pro nosso maior rival. Agora resta a nós, dentro de campo, dar a resposta, o retorno, a vitória que o torcedor tanto anseia. É entrar nos próximos vinte minutos como se nossa vida fosse aquele puck. É defender a posse dele, como defendemos a posse das nossas casas. Usar armas, bombas, o que for preciso. É entrar e arrebentar cada adversário. É entrar e deixa dentes, braços, suor, concussão naquele gelo. Vamos entrar e mostrar que vermelho é o nosso sangue, não uma parte do nome do adversário. Vamos voltar lá e mostrar que aqui é a nossa casa, aqui somos nós que mandamos. Vamos expulsar aqueles filhos da puta. Vamos arregaçar com os seus cus. Vamos mostrar pra torcida que ela pode contar conosco, que nós não somos apenas individualidades num quadro de estatísticas, nós somos um time, nós somos uma cidade. Vamos mostrar que os torcedores lá dos lugares mais baratos podem vir pra cá, depois de um dia sofrido, de uma vida de merda que eles levam, sentar e torcer e sair feliz com a nossa vitória. Vamos cagar na cabeça de quem disse que já estamos eliminados. É hora de entrar lá dentro e mostrar quem é que manda. É hora de fazer o torcedor voltar, e quem perdeu o jogo de hoje se arrepender de não ter visto aquele que ficará marcado como o jogo da arrancada rumo aos playoffs, ou mais, o jogo da arrancada rumo ao título da conferência e, se formos merecedores, rumo ao título da Stanley. Vamos mostrar pra esses filhos da putas que não se entra em mar que tem tubarões.
Gritaria. Toalhas jogadas. Mãos dadas. Gritos de guerra. Fomos para o campo.
Fizemos um terceiro período péssimo. Perdemos o jogo por 5-1.
Naquela noite, fui ter com o presidente, que me dispensou. Contrataram Alan Bocheqt para o meu lugar, um treinador finlandês.
O time venceu 16 jogos seguidos, batendo o recorde da liga. Classificou-se sem a necessidade do wild card. Venceu a conferência em cinco jogos e não precisou mais que os primeiros quatro para se sagrar campeão nacional.
De fato, aquele foi o jogo da arrancada.

27 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Voltar

É tarde. Tanto na vida, quanto no dia.
Na vida, dizem-me que não, mal iniciados os trinta.
No dia, o sol já se prepara a voltar depois de ir há tanto.
Leio Pessoa em nome de Bernardo Soares,
e os seus ditos, perdidos na loucura de dias passados,
soam-me como a minha'lma
decantando lamentos a quem sou ou fui.
Como Soares, sinto saudades de quem poderia ser.
E nunca pude conhecê-lo, como jamais poderei,
pois o tempo que me resta não sei,
o que tempo que me foi, passou.
Sou um lamento de pernas bambas,
sentadas sobre joelhos doloridos
que não suportam mais caminhar.
O horizonte fica-me além dos olhos cansados.
Os sonhos no pouco sono
entre pesadelos
e falta de ar.
A vida corre-me lenta,
queria morrer.
Passam dias e noites
e, sem que note, e noto além do que posso,
não sei que dias passam, que dias são.
Perdi-me no tempo de minha vida,
sem saber o que era pra ser vivido outrora,
sem saber viver o que não vivi,
sem saber sonhar o que queria ser.
Fui sem notar-me ser.
Vivi sem sentir o ar enchendo-me, verdadeiramente,
os pulmões meus.
Respeirei o gás carbônicos de outros pulmões,
vi a vida através de outros olhos,
e de respirar tanto carbono,
de enxergar tanta estrada que não a minha,
quando vi-me de volta ao meu mal-fadado corpo,
minha'lma notou-se cansada,
e há meses tenta se apoiar nas falsas promessas
e velhos conselhos embolorados
no afã de tentar seguir.
Mas doem-me também os joelhos d'alma.
Doem-me os pulmões de não ter vivido.
Dói-me o fato de não ter sido.
O sol lá fora fere os olhos.
Ressinto-me de sair,
apesar de saber preciso.
Eu só queria voltar pra casa.

26 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Dúvida cruel

E no meio de um desabafo acerca de tudo o que me deixa em dúvida sobre a vida e o futuro que não vejo em mim, a pergunta que nunca me fazem:
- Você já pensou em suicídio?
Talvez seja ela necessária, para que eu pare de pensar tanto no fim.

24 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Bota estilo militar

Eu vinha caminhando
em frente a essa loja
no Centro.
"Um rato!
um rato!
tem um rato ali!"
Gritos aflitos
de uma morena
vinte e poucos anos
calculei
cabelos negros
boca carnuda
belas coxas
parei.
Entrei,
ela apontou uma porta
"Ali, moço,
ali".
Observei.
Cinza
pequeno
assustado
acuado num canto.
De fato era um rato.
Sentei a cara da minha bota
estilo militar
entre a cabeça e o vaso,
morreu,
obviamente.
Pedi um pano velho,
limpei como pude
os restos do coitado,
embrulhei num saco,
coloquei na rua.
Palmas.
Abraços.
"Obrigada, moço,
obrigada".
A morte celebrada.
Azar do rato
não ter nascido beagle.
Fui embora
com uma mancha de sangue
ainda na bota.
08 de julho de 2014

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Vestido branco

Sôfrego desejo de ti,
este espúrio sentimento,
impalpável,
indelével,
tão contraditório
que não se sustenta
e diz o que não pode ser.

Do teu vestido branco
a vontade pulsante
de despir tua pele
sentir teu cheiro
o teu gosto
o teu gozo.

Sussurrar no teu ouvido distante
as palavras falsas
de uma noite a sós,
sob a luz fraca de uma lua invisível,
corpos em suor,
mãos em atrito suave,
beijos maciços, extremos.

E quando corpos estremecidos,
anunciantes do gozo a caminho,
se fizerem lençóis amassados
na cama de nossos vis pecados,
que eu seja a bruma esquecida
no orvalho matinal
de nossas nunca manhãs.

22 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Momento

Que tanta busca pela felicidade?
Por que não há de haver vida
que valha sem que a seja feliz?

Tanto sofrimento pelo fugaz momento.

As religiões não nos educam a viver.
Falam de vida inexistente,
impalpável,
irreal.

As ideologias não nos educam a viver.
Sonham mundos perfeitos,
onde há somente
os que nos acompanham
passos em ritmos iguais.

Toda religião é burra
pois não sabe viver a vida que se tem.
Toda ideologia é burra
pois não sabe viver a vida que não se tem.

Tanta busca pelo ideal,
tanto sofrimento por nada.

Não existe vida feliz.
E o momento passa
como se nem houvesse passado,
sem que nos demos conta.

21 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Amor e sexo

Ela me ligou às 3 da manhã.
- Amauri, você gosta de Rita Lee?
Daiane adorava me fazer perguntas retóricas. Três, dos meus quatro álbuns da Rita estavam com ela há tempo suficiente para que ela se esquecesse que haviam sido emprestados.
- Claro que gosto, Dai. Você sabe disso.
- É. Acho que já vi um ou outro disco dela por aí. Diz pra mim, o que latifúndio tem a ver com amor? E invasão com sexo? Não consigo achar o elo desses conceitos na Amor e Sexo.
Daiane, um ex-amor de sempre, daquelas paixões que vão ficando, ficando, sem se firmar, sem se efetivar. Amor que se guarda, sem contar a ninguém. Que vez ou outra volta e se vai. Como onda. Mas, a onda, ao menos, beija a areia antes de partir. Nunca beijei Daiane.
- Calma aí, Dai. Preciso pegar a música, a letra e pensar um pouco.
- Tá, mas não coloque nos fones de ouvido, ouça comigo.
Procurei nos meus arquivos, peguei a letra na internet. Coloquei para ouvir. Daiane cantarolava no telefone. Eu não conseguia pensar na letra, só na sua boca vermelha, declarando os versos. Amor e sexo. Com Daiane, ambos platônicos.
A música acabou. “E então?”, questionou.
Eu ali pensando em como ela estava. Como estava vestida. Se estava na cama, ou no sofá, de onde costumava me ligar. “Amauri?”. Voltei a realidade.
- É... hmmm, deixe-me pensar um pouco.
- Quer que eu te ligue depois? Conheço esse seu pensar um pouco. – e aquela risada gostosa enchendo minha orelha, meu cérebro, meu corpo.
- Não. Calma.
- Estou muito calma.
- Tá, olha... a pertinência do latifúndio, pensando agora, pode estar na continuidade da música, quando ela diz que amor é um, sexo é dois e que sexo vem dos outros e vai embora, amor vem de nós e demora.
- Prossiga.
- Latifúndio é uma grande área de terra, geralmente pertencente a uma só pessoa. Ou família, ou empresa. Partindo da premissa do pertencimento a uma só pessoa, isso corrobora primeiro com o trecho que diz “amor é um”, depois, com o que declara que amor vem de nós e demora.
Eu não sabia de onde vinha aquilo tudo, apenas continuei.
- Sexo é dois. Como não se faz invasão de si próprio, para se ter uma é preciso duas figuras: o invasor e o invadido. Se sexo é dois, então, invasão é sexo, o que meio que se percebe pela forma como sexo é visto pela maioria. E as invasões passam. Ou seja, vem dos outros e vai embora. O contrário do amor que, latifúndio, para se perder é preciso uma ação de desapropriação, que leva anos e anos.
Parei para respirar. Ela ria seu riso hipnótico do outro lado.
- Sendo assim, quero fazer de ti um latifúndio meu que é seu, para que eu possa sempre invadir.
Silêncio.
- Seu bobo. – e desligou.

21 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Cortinas

A gente passa uma vida toda ouvindo falar das nossas capacidades, possibilidades, potencialidades, sempre por quem nunca foi e nem será nós mesmos. E acreditamos. E vamos seguindo.
Então a vida nos coloca obstáculos.
Esqueça o que dizem os manuais do bom comportamento. Eles querem vender ilusões e produzir falsos heróis.
Simplesmente, muitos, a maioria, diante de determinados obstáculos, não conseguem viver como querem os manuais e os livros sagrados.
Eu sou um deles.
Não sou forte como sempre desenharam e me quiseram.
Não sou forte sequer como pensei que seria.
Não quero seguir o caminho trilhado.
Não tenho vontade de ouvir os conselhos.
Não tenho vontade de ter pessoas comigo.
Sinto muito, eu sou assim.
Perdi meu pai, pessoa que fazia sentido a tudo o que eu fazia. Achei que seria forte o suficiente e manter as coisas sem ele. Não consegui. Não consigo.
Percebi que não sou aquela pessoa que todos gostavam. Não sou aquela pessoa que todos faziam planos sem fim, de futuro brilhante, pré-traçado. Descobri que odeio quem eu achava gostar. Decidi que gosto um pouco de quem eu pensava amar. Descobri que não me gosto tanto. Descobri que jamais descobri quem eu sou.
Amam-me pelo que fingi ser.
Odeiam-me pelo que nunca fui.
Nunca foi honesto comigo.
Nunca fui eu mesmo.
Jamais serei.
Cansei de fingir.
Cansei de viver.
Já não tenho tempo para ser eu mesmo.
Já não quero fingir quem sou.
E não tenho coragem de por fim a tudo.
Viverei, enfim, até que a morte me abrace, uma vida que nunca será minha, dias que nunca serão meus.
E meus sorrisos serão atuações, nessa minha carreira brilhante de ator sem reconhecimento.
Que fechem logo as cortinas.

16 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 29 de junho de 2016

5 e meia

5:30h da matina... não acordo, porque não dormi.
Mais um café.
A cabeça explodindo,
como se eu tivesse dormido,
depois de uma noite de pó,
álcool,
putas
e algumas outras loucuras esquecidas.
Mas, eu não dormi.

O que será do café da manhã?
Ou almoço-jantar.
Essas convenções sociais,
perco-me,
não me encontro.
Parece que acordei perdido.
Mas, não dormi.

Aquela pressão na cabeça,
do lado
atrás
em cima
por dentro.
Vou explodir?
O peito flutua vazio,
onde está meu coração?
Vontade de vomitar?
Não.
Acho que acordei diferente,
mesmo sem ter dormido.

Que dia é hoje?
Cadê o sol?
São 5 e meia da manhã
e eu já pressinto que o dia
será uma grande merda.

E não são todos?

31 de janeiro de 2015

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A ideia

Ela não conseguia se libertar.
Não conseguia fugir.
Não conseguia encontrar o caminho
para sair da minha cabeça,
então ajudei.

Era eu ali, sentado na cama,
sem muito entender
o que fazia meu corpo
deitado em rio de sangue
no meu quarto decorado
com pedaços de cérebro
e nacos de ossos.

Meus olhos não acreditavam no que viam,
procuravam por algo que eu parecia ter esquecido.
Percorriam o quarto farejantes,
enlouquecidos pela toda presença.

Ela não conseguia se libertar.
Não conseguia fugir.
Não conseguia encontrar o caminho
para fora de minha cabeça,
e agora estava toda espalhada
pintada em sangue
por cada canto do meu quarto escuro.

31 de janeiro de 2015

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ah, um peitinho

Vivemos uma época difícil para o futuro da humanidade. Uma época em que é mais fácil ver a sua vizinha nua em um site pornô, do que fotos da atriz famosa, que pousou para uma revista.
Ok, eu posso estar exagerando. Mas, caminhamos para o fim da sensualidade. Tudo está demasiadamente escancarado. Tudo está abertamente fácil. Tudo está ficando sem graça.
Talvez, no futuro, essa superexposição ao sexo explique a queda na taxa de natalidade global. Talvez, no futuro, essa supervalorização do nu faça os descolados andarem vestidos até os dentes. Ou talvez não.
Que me perdoem as feministas, mas, o dorso desnudo não é coisa para se exibir por aí, tão facilmente. Foi, talvez, por isso, que nós homens, muitas vezes, pouco ligamos para a forma que exibimos por aí, e vocês, mulheres, precisam lidar com peitorais caídos e flácidos. Não sei. Eu posso ser um inocente eterno, mas, peitinho é algo sagrado.
Quiseram desmistificar o sexo e, aos poucos, vão tirando todo o mistério dele. Mistério esse que era, em boa parte, a graça do negócio.
Mas, muito da culpa dessa superexposição é de homens, digo, meninos imbecis. Não sou nada contra a troca de fotos e vídeos amadores entre pessoas que sentem tesão umas pelas outras. Pelo contrário, isso deve ser incentivado. No entanto, é preciso ser maduro o suficiente para entender que, quando uma pessoa se dispõe a ficar nua em fotos e poses, fotografar ou filmar, e nos enviar o resultado, existe confiança nesse ato. E confiança é algo que devemos prezar ao máximo. Confiança é algo que jamais devemos trair.
Vivemos tempos em que a troca desse tipo de material é cada vez mais facilitada pelos meios disponíveis a nós. Infelizmente, a falta de bom senso e escrúpulos parece acompanhar o incremento das tecnologias. Não à toa hoje temos dezenas, centenas de milhares de sites especializados em publicar fotos e vídeos de flagras.
Lembro-me da minha adolescência banhada de inocência por todos os lados. A lingerie era valorizada, o biquíni era valorizado. Um peitinho então, era a glória. E que glória. Semanas de banhos longos, tudo pela memória.
Hoje, ninguém mais valoriza peitos. Vê-se em qualquer lugar. Pornografia amadora está espalhada pela rede. Já fica até difícil ter tesão em assistir. Por isso, aqui vai um apelo à nova geração: RESISTA!
Resista ao ato imbecil de compartilhar com amigos e amigas as fotos e vídeos que você recebe no celular, no e-mail, no onde for, daquela pessoa com quem você compartilha tesão. Resista à moda de ser idiota. Seja você e a outra pessoa. Íntimos. Confiantes. Fieis à putaria entre si. E se você cansar dessa putaria, vá para outra, mas, mantenha-se fiel.
Pelo bem da humanidade, façamos o impossível para que, no futuro, o mundo possa voltar a valorizar um peitinho.

21 de janeiro de 2015

quarta-feira, 1 de junho de 2016

UTI

Amante.
Garanhão pura raça.
Alcoólatra.
Romântico cafajeste.
O pior e o melhor
reunidos num corpo
dividido em duas almas.
Eis o que,
aparentemente,
pensam de mim.

Eu,
que de tudo isso
nada fui,
ao menos completamente.

Eu,
que de tudo isso
nada mais sou.

Vivo da rejeição dos que me odeiam.
Sobrevivo da dó dos que me aceitam.
Respiro por pensar haver quem ainda me ama.

17 de janeiro de 2015

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Era uma vez

Eram tempos alegres,
de vida sem preocupação.
A preocupação
era aproveitar o tempo,
até o tempo se acabar.

E o tempo foi passando,
ficando mais curto,
mais cheio de tanto que não se quer fazer.

Os tempos alegres se vão,
como se vai a chuva que cai no verão
e que, sem saber que é passageira,
não se aproveita como se deveria.
Não nos dizem isso na hora certa,
deixam-nos saber quando já não há mais volta.

E por não nos dizer,
não dizemos aos que nos sucedem.
Pensamos ser essa
a melhor forma
de criar a geração que vem.
E eles serão uma cópia dos erros que cometemos,
e lamentaremos o futuro do mundo,
como lamentaram os que vieram antes de nós.
E tudo fica como está,
porque não sabemos como mudar.

Eram tempos alegres
aqueles em que não sabíamos de nada.
Hoje sabemos de tudo
e não vamos a lugar algum.

Até quando o Universo nos aceitará assim?

17 de janeiro de 2015

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Somos todos mendigos

Eu comia os últimos cantinhos das unhas restantes, enquanto a vinheta rodava e a contagem regressiva chegava a seu fim no estúdio. Marcos Paulo já falava, quando cuspi o último pedaço, suando frio. Era a primeira entrevista em muito tempo. Eu havia esquecido como era estar em um estúdio frio e aconchegante, enquanto a vida lá fora queimava em sóis de quarenta graus.
- Que saudades, Amauri! Quanto tempo, não?
Marcos Paulo e eu éramos amigos de tempos idos. Quando a cerveja era barata e o papo valia a pena.
- Pois é, Marcos. Eu estava por aí de folga da vid... digo, da mídia.
Algumas risadas forçadas na plateia.
- Da vida, pelo jeito, não estava mesmo. Esse cara aqui, para quem não conhece, é, simplesmente, o meu autor favorito. E depois de muito tempo desaparecido, ele retorna com mais um livro de respeito, e esse visual todo condinzente com o discurso escrito. Como aconteceu isso?
Depois de alcançar um relativo sucesso com meu primeiro livro, eu iniciei uma intensa batalha para transformar em filme um dos livros que mais me impactaram. Batalha inútil, sentindo-me vencido, resolvi que era hora de sumir um pouco, aproveitar o dinheiro que ainda tinha. Durante esse período fui chamado de "O Monge Amauri", por praticamente permanecer em casa, sem emitir quaisquer opiniões, nem mesmo publicar nada. Também não fiz a barba e não fui muito cuidadoso com o cabelo, daí Marcos Paulo dizer que meu visual condizia com o discurso da nova publicação, que eu não chamava de livro, para mim era mais um desabafo publicado.
- É. Esse período meio isolado me fez pensar em coisas mais importantes que o visual. Coincidentemente, acabei parecendo muito com o título. - sempre sorria tímido em frente as câmeras.
- "Somos todos mendigos", é isso mesmo?
Somos todos mendigos, esse era o nome do que diziam ser meu novo livro.
- É isso mesmo. Todos nós somos mendigos.
- E como você chegou à concepção desse livro-conceito?
- Então, Marcos, eu não o considero um livro. É mais um desabafo que meu editor acabou encontrando em casa, certo dia, depois de um porre, e decidiu que seria interessante apresentar para os sócios. Não sei o que eles andam fazendo da vida deles, aparentemente, dinheiro não é uma preocupação, então resolveram lançar isso aí.
- "Resolveram lançar isso aí", parece um pouco de desprezo pelo livro.
A plateia riu.
- Não sei se desprezo. Mas, não sei, era algo mais pessoal, sabe? Algo que eu escrevi sem pretensões, e foi estranho gostarem e aprovarem.
- Tá, interrompeu Marcos, mas, do que exatamente trata o tal discurso - e disse a última palavra fazendo aspas no ar.
Mais risadas da plateia. Era hora de eu acabar com a surpresa.
- Bem, eu não sei se vou conseguir explicar sem contar todo o livro e acabar com qualquer pretensão que alguém tenha de comprar o livro. Provavelmente, acabarão com meu contrato.
Bebi um gole de cerveja da caneca.
- Nós somos todos mendigos, Marcos, essa é a verdade. Costumamos pensar que mendigos são aqueles humanos maltrapilhos que vemos pelas esquinas e no centro da cidade, abandonados, sem dinheiro, sem esperança de futuro. Mas, não é só isso. Aqueles são a esteriotipação do termo. No fundo, cada um de nós, cada ser humano, em menor ou maior grau, é mendigo.
- Hmmm, murmurou Marcos, deixa ver se eu entendi. Você tá querendo dizer que até mesmo o Bill Gates, por exemplo, com seus bilhões, e centenas de projetos, é um mendigo?
A plateia ria desafiadora.
- Exatamente.
Marcos olhava para a plateia, como quem dizia em silêncio "ok, eu sei, eu trouxe um louco para o programa hoje".
- "Exatamente" não é, exatamente, uma explicação.
- Veja, Marcos, o que é um mendigo?
- Ora, é uma pessoa pobre que pede esmolas pela rua.
- Não. Você está usando a imagem esteriotipada do mendigo. Por que o mendigo pede esmola na rua?
- Porque... ele não tem dinheiro?
- Porque ele não tem dinheiro! Ou seja, mendigo é aquele que pede por algo que não pode ter. E é nisso que se baseia o discurso. Somos todos mendigos, em algum momento, ou pela vida toda.
- Porque todos nós, em algum momento, estamos pedindo por algo que não temos. - concluiu sorridente o apresentador em êxtase, para delírio da plateia.
- É basicamente isso. Vejamos o seu exemplo. Bill Gates. Multibilionário. Provavelmente realizado em muitos campos da vida comum. E, mesmo assim, engajado em projetos para melhorar a condição humana. Ele é um mendigo também. Ele luta a cada dia para conseguir o que não tem.
- Uau. Nunca tinha pensado nisso.
- Mas, você leu o livro, certo?
- Ah, sim, nunca tinha pensado nisso antes de ler o livro.
- Você, por exemplo, é também um mendigo. Você vem todo dia aqui, senta-se nessa cadeira, chama um convidado, e clama pela audiência do público. Isso é ser mendigo. Isso é esticar a canequinha em praça pública para conseguir algumas migalhas. É nisso que se resume a condição humana.
- Somos, de fato, todos mendigos. Amauri, senhoras e senhores!
A plateia aplaudiu meio aturdida. Fomos para o intervalo. Mais esmolas seriam pedidas aos telespectadores.