quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Sobre um cachorro, uma cova rasa e um túnel para fugir da prisão

Eu tinha um cachorro,
que com certeza ficava mais feliz em me ver
do que eu ficava feliz ao vê-lo.
São assim todos os animais de estimação,
é besteira pensar que eles nos amam,
é besteira pensar em sua felicidade ao nos ver,
eles precisam de nós.
Onde há dependência,
onde há necessidade,
não pode haver amor.
É como respeito e medo.
Não existe respeito verdadeiro
baseado no medo.
Quem teme não respeita,
apenas obedece por amor a si próprio.

Onde há dependência, necessidade,
não há amor,
no máximo uma doença que acomete o canto de nossa carência no cérebro.
Não há amor na dependência.

E eu tinha esse cachorro,
que foi ficando velhinho, velhinho,
e um dia morreu sem avisar.
Não houve pulos e babadas
e rabos abanando naquele dia.
Cheguei bêbado com o resto dos petiscos do bar
(que peguei em mesas vazias)
e não o procurei,
deixei os restos no canto onde ele comia,
deitei.
Acordei com a boca seca,
um não saber onde estava,
um querer voltar ao bar.

Fui até a cozinha pegar uma cerveja antes de sair da cama,
e lá estava ele,
petrificado,
duro e fedido mais que o normal.

Enrolei-o num saco plástico,
fui até um terreno baldio próximo a um bar,
parei o carro, tirei a pá,
cavei
cavei
cavei
uma cova rasa,
mas que parecia o caminho para o fim do mundo,
tanta era a terra no monte ao lado do buraco.
Enterrei-o,
não marquei o local.
Bati a terra acumulada na bermuda jeans velha,
contei os trocados na carteira,
guardei a pá,
caminhei até o bar
e bebi
perguntando ao amigo desconhecido ao lado,
que também bebia já às 10 da matina,
como é que não percebiam a existência de um túnel de fuga numa prisão
se uma simples cova rasa já nos fazia ter de tirar terra pra cacete do chão.

Daquele dia em diante
nunca mais houve rabo abanando a minha espera.
Os petiscos eu ainda levava,
mas já não colocava no canto,
eles esperavam eu acordar, faminto,
dentro da geladeira.

15 de abril de 2015

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Tinta azul

Era uma terça feira,
já passava da hora do almoço,
quando fui almoçar.

Restaurante ainda com bastante gente,
apesar do horário. Comida boa,
farta, deliciosamente caseira.
Almocei sem pressa.

Conversa despretensiosa com a dona,
com conhecidos na rua,
precisava comprar carga
para uma caneta esferográfica chique,
daquelas que, eventualmente,
acabo pegando de alguém para cuidar.

A semana anterior havia sido de planejamento,
pesquisei com afinco na sexta o melhor preço,
só em sites, lojas virtuais.

Na volta daquele delicioso almoço de terça
(que purê de mandioca salsa abençoado),
resolvi passar numa papelaria.

Do planejamento anterior a decisão:
tinta azul.
Eu até pensei em tinta preta,
mas, lembrei que possuía várias canetas da cor,
optei pela azul.

Fui ao balcão correto,
perguntei pelo modelo,
perguntaram-me a cor,
respondi: preta.

"Vocês têm ponta fina?".
"Não, só média".
"Tudo bem".
"Só entregar esse papel no caixa
e retirar na saída".
Uma volta.
Compras esparsas.
Pagamento, troco, retirada.
No carro, teste:
tinta azul.
Tinta azul?
Mas eu pedi preta!
Preta, eu pedi,
mas, queria mesmo era azul.

A tiazinha do balcão de canetas me lembrou um ser mitológico,
daqueles que agem de forma misteriosas,
escrevendo em azul
com canetas pretas.

14 de abril de 2015

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Tudo bem

Não é que eu não queira saber.
Eu até quero, raramente.
O que eu não gosto é de perguntar.
Se querem que eu saiba,
que me contem.
O ter de perguntar é que me incomoda,
e aí não pergunto.
E tacham-me frio,
seco,
distante,
desinteressado.
Ok,
desinteressado eu até concordo,
na maioria das vezes.
Mas, é que há tanta coisa a se saber,
que se quisessem que eu soubesse algo
penso que me diriam de inopino.
Se esperam que eu pergunte,
talvez esperarão demais.
Não é que eu não queira saber,
mas, se me dizem "estou bem",
eu prefiro acreditar
e voltar a pensar no milhão de coisas
que a minha cabeça pensa de segundo a segundo.
Não é que eu não queira saber,
é que eu nunca vou querer
se não começarem a contar.

14 de abril de 2015

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Não me encham o saco

Não me encham o saco
com suas visões políticas periféricas
afetadas por um olho sadio
e outro cego.

Não me encham o saco
com sua direita elitista,
defensora de uma meritocracia injusta,
que confunde força de vontade
com vontade à força.

Meritocracia...
que mérito reside em um herdeiro de milionário
de ser ele milionário?

Não me encham o saco
com sua esquerda vitimista,
defensora de ideais impossíveis
e assassinos frios e intolerantes,
que defendem a liberdade,
desde que a liberdade não ofenda suas crenças.

Porra...
o mundo já não deu prova o bastante
de que o ser humano não consegue ser bom com seus iguais?
"Quanto mais conhecemos os humanos,
mais gostamos de nossos animais".

Somos todos animais,
não importa de que lado nossa seta está apontando.
Resta-nos então o centro,
mas, o centrão também é podre,
é nele que corre o esgoto que escorre das ladeiras laterais.

Apenas me deixem viver,
eu acho que consigo sozinho,
sem suas ideologias de séculos passados,
que nunca aceitaram
em seus estatutos
a lei mor de toda visão
o básico do básico para toda sociedade:
o respeito à opinião alheia.

Não me encham o saco
com seus fundamentalismos,
enfiem eles nos seus cus.

14 de abril de 2015

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pequenas montanhas

Veio a vontade,
alimentada pela tarde toda entre cheiros e sabores,
e fui.

Nunca tinha reparado
nas pequenas montanhas formadas nas colheres
enfiadas com delicadeza no pote de café.
A depressão formava um vale marrom escuro
onde antes havia planície.

A água tomava forma em bolhas,
prestes a levantar fervura.
Bolhas.
O silêncio da madrugada transformava em música
a inaudível explosão das pequenas esferas de gases
submergindo do fundo de aço
ao além mar que era ar e desespero.

Um primeiro despejar de pré-fervente líquido
preparava a garrafa, o filtro,
para receber, quente e aconchegante,
o pó escuro da fruta outrora vermelha e doce.

Duas, três, quatro pequenas montanhas
se desfaziam no fundo cônico e branco
de um papel descartável e fundamental.

No centro da planície de base cônica
a água envolvia o pó,
levantando o perfume duro e envolvente.

Ressequida, a lama negra recebera as torrentes líquidas,
em movimentos circulares,
levantando o creme claro, por cima do turbilhão escuro
que cuspia líquido negro
na garrafa aquecida.

Ouro negro transbordava do bico,
os pingos silenciados pelo gargalo já tomado.

O copo meio cheio
esvaziava-se em prazeres.

O café da madrugada estava pronto,
pronto para se transformar em palavras sem sentido,
nessa toda vida sentida.

21 de março de 2015

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Arrancada

Era mais um jogo em casa. Faltavam vinte para terminar a temporada regular. Estávamos a duas vitórias de diferença da classificação para os playoffs. Precisávamos da vitória. Estávamos perdendo por 2-1, o segundo período acabara há alguns segundos. No vestiário, uma tristeza latente, a falta de confiança visível em cada olhar, cada largada de sticks no chão emborrachado. Eu precisava dar um choque no pessoal.
Fui até o quadro branco onde rascunhávamos jogadas e escrevi, em letras garrafalmente vermelhas:
NÓS SOMOS O PIOR TIME DO MUNDO.
Um zum zum zum começou. Foram sentando-se me encarando. Eu encarando cada um deles.
Apaguei. Mais alguns sentaram, enquanto uns poucos acertavam os instrumentos de jogo. E escrevi:
NÓS SOMOS O PIOR E MAIS COVARDE TIME DO MUNDO.
Começava a sentir um grave repúdio àquelas palavras. Agora praticamente todos estavam sentados, olhando-me com cara de desafio. Resolvi devolver o desafio:
- Carter, você é o pior goleiro do mundo? - questionei.
- Não, senhor. Minha porcentagem de defesa está entre os 25 melhores da liga, e estamos na melhor liga do mundo. Então, não, não sou o pior goleiro do mundo.
Um zumbido de apoio foi ouvido.
- E eu sou um dos artilheiros. - gritou Johnson, nosso sueco do ataque.
E as autopromoções foram tomando corpo. Até que gritei:
- ENTÃO POR QUE CARALHO NÓS ESTAMOS NA SÉTIMA POSIÇÃO DA DIVISÃO MAIS FRACA DA LIGA?
Um silêncio que incomodava fez-se ouvir.
- Nós somos, em teoria, um dos melhores elencos da liga. Nós temos jogadores no top dez de várias estatísticas. E, mesmo assim, estamos fora até mesmo da briga pelo wild card.
O silêncio ainda incomodava.
- Estamos há vinte jogos, não, dezenove jogos e um período do fim da temporada. Vocês querem jogar esses dezenove e um terço e tirarem férias? É isso? - um "não" coletivo fez-se ouvir e sentir - Porque é isso que parece quando estamos jogando. Nós estamos em casa. Perdemos cinco jogos seguidos aqui, em nossos domínios, diante da nossa torcida, os caras que pagam nosso salário. Vocês acham isso certo?
O não, aparentemente, os jogadores sabiam entoar em uníssono.
- Pois eu quero ver isso em campo. Perder jogos em casa é normal, nós temos 41 jogos, perder cinco, seis, até dez, desde que se recupere fora, fica dentro da normalidade. Mas, nós perdemos cinco. CINCO! E estamos caminhando para a sexta derrota. Faltam menos de vinte jogos, meus caros. Mas, podem faltar mais jogos. Tudo depende desses vinte.
Olhava para como se fosse comer o rim esquerdo de cada um deles.
- Chegamos num momento da temporada que é vencer ou vencer. Não tem dessa de segurar resultado. Não tem essa de garantir ponto extra levando pro "overtime", nós precisamos vencer. E tem que ser dentro dos sessenta minutos de jogo. Tem que ser de qualquer jeito. Nossa torcida está precisando disso. Vocês olharam para o ginásio hoje? Vocês notaram que não está cheio? É culpa nossa! Nós esvaziamos aqueles lugares com nossas cinco derrotas, nós esvaziamos aquelas cadeiras com nossa queda de rendimento e afastamento da zona de classificação, nós esvaziamos camarotes com a derrota pro nosso maior rival. Agora resta a nós, dentro de campo, dar a resposta, o retorno, a vitória que o torcedor tanto anseia. É entrar nos próximos vinte minutos como se nossa vida fosse aquele puck. É defender a posse dele, como defendemos a posse das nossas casas. Usar armas, bombas, o que for preciso. É entrar e arrebentar cada adversário. É entrar e deixa dentes, braços, suor, concussão naquele gelo. Vamos entrar e mostrar que vermelho é o nosso sangue, não uma parte do nome do adversário. Vamos voltar lá e mostrar que aqui é a nossa casa, aqui somos nós que mandamos. Vamos expulsar aqueles filhos da puta. Vamos arregaçar com os seus cus. Vamos mostrar pra torcida que ela pode contar conosco, que nós não somos apenas individualidades num quadro de estatísticas, nós somos um time, nós somos uma cidade. Vamos mostrar que os torcedores lá dos lugares mais baratos podem vir pra cá, depois de um dia sofrido, de uma vida de merda que eles levam, sentar e torcer e sair feliz com a nossa vitória. Vamos cagar na cabeça de quem disse que já estamos eliminados. É hora de entrar lá dentro e mostrar quem é que manda. É hora de fazer o torcedor voltar, e quem perdeu o jogo de hoje se arrepender de não ter visto aquele que ficará marcado como o jogo da arrancada rumo aos playoffs, ou mais, o jogo da arrancada rumo ao título da conferência e, se formos merecedores, rumo ao título da Stanley. Vamos mostrar pra esses filhos da putas que não se entra em mar que tem tubarões.
Gritaria. Toalhas jogadas. Mãos dadas. Gritos de guerra. Fomos para o campo.
Fizemos um terceiro período péssimo. Perdemos o jogo por 5-1.
Naquela noite, fui ter com o presidente, que me dispensou. Contrataram Alan Bocheqt para o meu lugar, um treinador finlandês.
O time venceu 16 jogos seguidos, batendo o recorde da liga. Classificou-se sem a necessidade do wild card. Venceu a conferência em cinco jogos e não precisou mais que os primeiros quatro para se sagrar campeão nacional.
De fato, aquele foi o jogo da arrancada.

27 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Voltar

É tarde. Tanto na vida, quanto no dia.
Na vida, dizem-me que não, mal iniciados os trinta.
No dia, o sol já se prepara a voltar depois de ir há tanto.
Leio Pessoa em nome de Bernardo Soares,
e os seus ditos, perdidos na loucura de dias passados,
soam-me como a minha'lma
decantando lamentos a quem sou ou fui.
Como Soares, sinto saudades de quem poderia ser.
E nunca pude conhecê-lo, como jamais poderei,
pois o tempo que me resta não sei,
o que tempo que me foi, passou.
Sou um lamento de pernas bambas,
sentadas sobre joelhos doloridos
que não suportam mais caminhar.
O horizonte fica-me além dos olhos cansados.
Os sonhos no pouco sono
entre pesadelos
e falta de ar.
A vida corre-me lenta,
queria morrer.
Passam dias e noites
e, sem que note, e noto além do que posso,
não sei que dias passam, que dias são.
Perdi-me no tempo de minha vida,
sem saber o que era pra ser vivido outrora,
sem saber viver o que não vivi,
sem saber sonhar o que queria ser.
Fui sem notar-me ser.
Vivi sem sentir o ar enchendo-me, verdadeiramente,
os pulmões meus.
Respeirei o gás carbônicos de outros pulmões,
vi a vida através de outros olhos,
e de respirar tanto carbono,
de enxergar tanta estrada que não a minha,
quando vi-me de volta ao meu mal-fadado corpo,
minha'lma notou-se cansada,
e há meses tenta se apoiar nas falsas promessas
e velhos conselhos embolorados
no afã de tentar seguir.
Mas doem-me também os joelhos d'alma.
Doem-me os pulmões de não ter vivido.
Dói-me o fato de não ter sido.
O sol lá fora fere os olhos.
Ressinto-me de sair,
apesar de saber preciso.
Eu só queria voltar pra casa.

26 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Dúvida cruel

E no meio de um desabafo acerca de tudo o que me deixa em dúvida sobre a vida e o futuro que não vejo em mim, a pergunta que nunca me fazem:
- Você já pensou em suicídio?
Talvez seja ela necessária, para que eu pare de pensar tanto no fim.

24 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Bota estilo militar

Eu vinha caminhando
em frente a essa loja
no Centro.
"Um rato!
um rato!
tem um rato ali!"
Gritos aflitos
de uma morena
vinte e poucos anos
calculei
cabelos negros
boca carnuda
belas coxas
parei.
Entrei,
ela apontou uma porta
"Ali, moço,
ali".
Observei.
Cinza
pequeno
assustado
acuado num canto.
De fato era um rato.
Sentei a cara da minha bota
estilo militar
entre a cabeça e o vaso,
morreu,
obviamente.
Pedi um pano velho,
limpei como pude
os restos do coitado,
embrulhei num saco,
coloquei na rua.
Palmas.
Abraços.
"Obrigada, moço,
obrigada".
A morte celebrada.
Azar do rato
não ter nascido beagle.
Fui embora
com uma mancha de sangue
ainda na bota.
08 de julho de 2014

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Vestido branco

Sôfrego desejo de ti,
este espúrio sentimento,
impalpável,
indelével,
tão contraditório
que não se sustenta
e diz o que não pode ser.

Do teu vestido branco
a vontade pulsante
de despir tua pele
sentir teu cheiro
o teu gosto
o teu gozo.

Sussurrar no teu ouvido distante
as palavras falsas
de uma noite a sós,
sob a luz fraca de uma lua invisível,
corpos em suor,
mãos em atrito suave,
beijos maciços, extremos.

E quando corpos estremecidos,
anunciantes do gozo a caminho,
se fizerem lençóis amassados
na cama de nossos vis pecados,
que eu seja a bruma esquecida
no orvalho matinal
de nossas nunca manhãs.

22 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Momento

Que tanta busca pela felicidade?
Por que não há de haver vida
que valha sem que a seja feliz?

Tanto sofrimento pelo fugaz momento.

As religiões não nos educam a viver.
Falam de vida inexistente,
impalpável,
irreal.

As ideologias não nos educam a viver.
Sonham mundos perfeitos,
onde há somente
os que nos acompanham
passos em ritmos iguais.

Toda religião é burra
pois não sabe viver a vida que se tem.
Toda ideologia é burra
pois não sabe viver a vida que não se tem.

Tanta busca pelo ideal,
tanto sofrimento por nada.

Não existe vida feliz.
E o momento passa
como se nem houvesse passado,
sem que nos demos conta.

21 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Amor e sexo

Ela me ligou às 3 da manhã.
- Amauri, você gosta de Rita Lee?
Daiane adorava me fazer perguntas retóricas. Três, dos meus quatro álbuns da Rita estavam com ela há tempo suficiente para que ela se esquecesse que haviam sido emprestados.
- Claro que gosto, Dai. Você sabe disso.
- É. Acho que já vi um ou outro disco dela por aí. Diz pra mim, o que latifúndio tem a ver com amor? E invasão com sexo? Não consigo achar o elo desses conceitos na Amor e Sexo.
Daiane, um ex-amor de sempre, daquelas paixões que vão ficando, ficando, sem se firmar, sem se efetivar. Amor que se guarda, sem contar a ninguém. Que vez ou outra volta e se vai. Como onda. Mas, a onda, ao menos, beija a areia antes de partir. Nunca beijei Daiane.
- Calma aí, Dai. Preciso pegar a música, a letra e pensar um pouco.
- Tá, mas não coloque nos fones de ouvido, ouça comigo.
Procurei nos meus arquivos, peguei a letra na internet. Coloquei para ouvir. Daiane cantarolava no telefone. Eu não conseguia pensar na letra, só na sua boca vermelha, declarando os versos. Amor e sexo. Com Daiane, ambos platônicos.
A música acabou. “E então?”, questionou.
Eu ali pensando em como ela estava. Como estava vestida. Se estava na cama, ou no sofá, de onde costumava me ligar. “Amauri?”. Voltei a realidade.
- É... hmmm, deixe-me pensar um pouco.
- Quer que eu te ligue depois? Conheço esse seu pensar um pouco. – e aquela risada gostosa enchendo minha orelha, meu cérebro, meu corpo.
- Não. Calma.
- Estou muito calma.
- Tá, olha... a pertinência do latifúndio, pensando agora, pode estar na continuidade da música, quando ela diz que amor é um, sexo é dois e que sexo vem dos outros e vai embora, amor vem de nós e demora.
- Prossiga.
- Latifúndio é uma grande área de terra, geralmente pertencente a uma só pessoa. Ou família, ou empresa. Partindo da premissa do pertencimento a uma só pessoa, isso corrobora primeiro com o trecho que diz “amor é um”, depois, com o que declara que amor vem de nós e demora.
Eu não sabia de onde vinha aquilo tudo, apenas continuei.
- Sexo é dois. Como não se faz invasão de si próprio, para se ter uma é preciso duas figuras: o invasor e o invadido. Se sexo é dois, então, invasão é sexo, o que meio que se percebe pela forma como sexo é visto pela maioria. E as invasões passam. Ou seja, vem dos outros e vai embora. O contrário do amor que, latifúndio, para se perder é preciso uma ação de desapropriação, que leva anos e anos.
Parei para respirar. Ela ria seu riso hipnótico do outro lado.
- Sendo assim, quero fazer de ti um latifúndio meu que é seu, para que eu possa sempre invadir.
Silêncio.
- Seu bobo. – e desligou.

21 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Cortinas

A gente passa uma vida toda ouvindo falar das nossas capacidades, possibilidades, potencialidades, sempre por quem nunca foi e nem será nós mesmos. E acreditamos. E vamos seguindo.
Então a vida nos coloca obstáculos.
Esqueça o que dizem os manuais do bom comportamento. Eles querem vender ilusões e produzir falsos heróis.
Simplesmente, muitos, a maioria, diante de determinados obstáculos, não conseguem viver como querem os manuais e os livros sagrados.
Eu sou um deles.
Não sou forte como sempre desenharam e me quiseram.
Não sou forte sequer como pensei que seria.
Não quero seguir o caminho trilhado.
Não tenho vontade de ouvir os conselhos.
Não tenho vontade de ter pessoas comigo.
Sinto muito, eu sou assim.
Perdi meu pai, pessoa que fazia sentido a tudo o que eu fazia. Achei que seria forte o suficiente e manter as coisas sem ele. Não consegui. Não consigo.
Percebi que não sou aquela pessoa que todos gostavam. Não sou aquela pessoa que todos faziam planos sem fim, de futuro brilhante, pré-traçado. Descobri que odeio quem eu achava gostar. Decidi que gosto um pouco de quem eu pensava amar. Descobri que não me gosto tanto. Descobri que jamais descobri quem eu sou.
Amam-me pelo que fingi ser.
Odeiam-me pelo que nunca fui.
Nunca foi honesto comigo.
Nunca fui eu mesmo.
Jamais serei.
Cansei de fingir.
Cansei de viver.
Já não tenho tempo para ser eu mesmo.
Já não quero fingir quem sou.
E não tenho coragem de por fim a tudo.
Viverei, enfim, até que a morte me abrace, uma vida que nunca será minha, dias que nunca serão meus.
E meus sorrisos serão atuações, nessa minha carreira brilhante de ator sem reconhecimento.
Que fechem logo as cortinas.

16 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 29 de junho de 2016

5 e meia

5:30h da matina... não acordo, porque não dormi.
Mais um café.
A cabeça explodindo,
como se eu tivesse dormido,
depois de uma noite de pó,
álcool,
putas
e algumas outras loucuras esquecidas.
Mas, eu não dormi.

O que será do café da manhã?
Ou almoço-jantar.
Essas convenções sociais,
perco-me,
não me encontro.
Parece que acordei perdido.
Mas, não dormi.

Aquela pressão na cabeça,
do lado
atrás
em cima
por dentro.
Vou explodir?
O peito flutua vazio,
onde está meu coração?
Vontade de vomitar?
Não.
Acho que acordei diferente,
mesmo sem ter dormido.

Que dia é hoje?
Cadê o sol?
São 5 e meia da manhã
e eu já pressinto que o dia
será uma grande merda.

E não são todos?

31 de janeiro de 2015